quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pra além do arco-íres

Todos os dias, só acordava ao tocar os dedos no chienelo ao pé da cama. Então fazia nascer o dia e ela se editava em mais um capítulo. Era a novela que nunca acabava porque só tinha começo. Ou seria cinema? Adorava fins de ano, porque haveria o primeiro dia ... Fim de década... E já havia passado por duas. Presenciou o fim do milênio e devia se achar uma privilegiada por isso. Fazia todos os planos e começava a executá-los. Mas depois do início vinha o meio e, como ela só queria o novo, voltava ao zero e vivia assim fantasiada de fênix, escondendo as rugas que também insistiam em começar.
Ela adorava promessas – as próprias e as alheias. Assim, tudo era novidade e ela garantia que não se jogaria do terraço!
O tédio era uma pedra que ela jogava na vidraça do vizinho da frente.
Certo dia minha vidraça não se estraçalhou e tudo que soube foi que a inquilina do apartamento de frente ao meu havia se mudado. Certamente fez as malas e atravessou o arco-íres!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Para você, minha Bitta

Silêncio é só o que consigo ser hoje. O vazio que o tempo planta entre presença e ausência. Horas se tornarão anos e te levarão para longe de mim. Porque ainda agora você estava aqui nos meus braços tão pequena e indefesa. Seus olhinhos... Cadê você, Bittinha? Bibi? Bibibi? Bibi!!! Ah, meu amor, você está aqui... só não a vejo, mas sinto. Cuidando de seu filhinho Nino adotado, deitando sobre as roupas deixadas na cama, soltando pelos pela casa inteira. Eu te amo, minha Bitta.
O amor teima em não se resignar em amar sem você, mas ele agora tem de ser ainda mais sublime porque vai amá-la por toda parte, por toda a eternidade, mesmo sem vê-la em seu aspecto físico. E toda vez que eu pegar meu violão estarei tocando para você também, estarei a embalando nas notas que você sempre me ajudou a tocar.
E até que eu me acostume (?) em não lhe ver, estarei oca, apesar do amor enorme que me alenta. Um amor que flutua sem gravidade e não tem mais forma definida. É esférico e eterno em busca de seus olhinhos, de seu pelo tigrado dormindo ao meu lado e me aquecendo no frio.
A morte não existe, Bitta. É uma invenção do tempo, um furto abrupto da existência. Mas é só um duto do amor para a eternidade.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Velho Ano Novo

      Um ano que acaba mais uma vez tão corrido, tão fugidio... A mesma sucessão de dias e meses se dará como em todos os anos, mas o fascínio pelo novo é sempre instigante. O ovo sempre encanta a galinha. A volta ao começo, o mito da cosmogonia...A novidade, enfim!
Essa troca teimosa do velho pelo novo me lembra a história de uma vizinha de quem me tornei confidente anos atrás. Não, desta vez não é a Fada Bêbada, nem a moça do metrô, nem uma amiga. Era só a vizinha que me contava suas aventuras e desventuras. Sendo meio Bela da Tarde, meio Dama do Lotação, era casada e apaixonada pelo marido, mas não se continha nos confins de seu bem sucedido casamento e inventava affairs ardentes e incontroláveis. Enamorava-se por no máximo dois meses e desapaixonava-se, partindo para uma nova história. Embriagava-se do sumo até o que ela acreditava ser o bagaço e partia em busca de fruta madura e suculenta à deriva. Ocorre que uma das suas paixonites a estava comendo pelos tornozelos – não conheço esta expressão, mas devia ser mais ou menos essa a sensação da moça. Um mês de flertes acintosos se passara e nada dela sentir o gosto da tal fruta... Ela contava da boca carnuda, das mãos grandes, dos cabelos esvoaçantes e do olhar profundo e meio triste. Empolgava-se ainda mais e falava da pele muito bronzeada, dos cabelos queimados de sol e de um ar de bicho sem dono... Como nunca tive a oportunidade de conhecer nenhum de seus amigos apetitosos, a impressão que tenho é que sempre se tratava do mesmo rapaz... sempre cabeludo, sempre com olhos negros perscrutadores, sempre com jeito de cigano. Invariavelmente ela gostava de um perfil masculino atávico.
      Fato é que ela andava um tanto desequilibrada. Algo sempre dava errado e mais de dois meses iam-se em brancas nuvens, sem que ela o experimentasse afinal. Assim, ela se deu um prazo. Quinze dias e nem mais um segundo. Era dezembro e a época não muito propícia para casos fortuitos... Natal, confraternização com amigos, família, colegas de trabalho... Eis que o décimo quinto dia caiu no dia 31. A noite seria de brindes e espumas e como sempre, seu marido já tinha tudo muito bem programado.
      Foi então que ela superou suas fugas iníquas e dopou o esposo. No chá, no café... Não sei como o fez ingerir a tal droga, mas precisava que ele dormisse, afinal, haveria fogos, bombas de todos os sons, barulhos de boas vindas ao ano que vinha chegando, e, ademais, a Globo há tantas novelas ensina este feito às suas telespectadoras, que , certamente, de falta de criatividade para fazê-lo ingerir a tal droga ela não padeceu! Mas ele não dormia. Tentou uma primeira dose, uma segunda e meia... Até que, com os olhos vermelhos, ele cogitou cochilar antes de saírem para romper o ano. Quando a moça pensou que o tal calmante surtia efeito, o marido acendeu a luz e saltou para ela como um bicho voraz atrás de sua presa no cio.  Ela me garantiu que foi uma experiência selvagem, já que, apesar do enorme amor que nutria pelo digníssimo, era  raiva que a cegava naquela hora. Era tesão contido pelo outro, que àquela altura já a esperava desanimado. Teve muita, muita raiva do marido, que, inocente e inadvertidamente a possuía desavisado.
      Claro que depois de tanta energia gasta e sei lá quantas doses cavalares de algum calmante... Ele adormeceu e ela saiu. Descabelada, exausta e com sono. Já passava das quatro do ano seguinte.
     Disse que foi ter com o outro já cheirando a cidra e cigarro barato no quarto de hotel chinfrim onde marcaram antes do ano se acabar. Mas ela chegou tanto tempo depois, que até o ano novo já tinha cara de velho conhecido.
      Resultado: Teve de curar a  ressaca do tal rapaz de pele morena, a ressaca do marido, que só acordou de fato no segundo dia do ano e a dela própria, que, depois me confessou não ser a tal ressaca moral, mas sim ressaca de muito ano novo pra pouca novidade.
Não muito tempo depois, mudei-me do antigo endereço e a vizinha deve ter arranjado uma nova confidente para contar seus velhos mesmos casos!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Amores Líquidos

Apropriando-me da idéia muito pertinente de Bauman, grito à Fada Bêbada que esses amores líquidos molham sim. Mas ela insiste que não e bate pé que se, por ventura, molhassem, as suítes que ela freqüenta têm secador de cabelo. Ela continua com essa mania de encher o peito pra dizer que está numa hidro espumante de motel, sozinha e trêbada...Vertendo-se, diluindo-se seca pra ninguém, como se só ela fosse a detentora da patente de estar sozinha num motel!
 Ela é a própria liquidez de que trata o dito sociólogo. Será que ele a conhece?
Ela diz que a espuma branca e quente é estimulante, que faz bem pra pele. E Freud até explicaria se ela deixasse, mas ela já o condenou inexoravelmente à grande fogueira desde que chamou clitóris de micropinto.
Cansei de tentar solidificá-la sobre qualquer base que não seja fluida. Ela quer continuar flutuante em suas espumas, escrava de uma poesia não licenciada, teimosa em seus amores diluídos e calada feito um túmulo. Se ao menos ela socializasse essas aventuras sexuais de que tanto se orgulha, eu teria histórias picantes para contar aqui. Mas não, fica do alto de sua banheira, pousando de garota propaganda de sabonete Lux – ou hidratente Monange, tentando acreditar que é o máximo porque inatingível por seus affairs. Um dia ela ainda se afoga de bêbada ou entra na banheira com o secador ligado... Enquanto não, eu tenho de aturar a simbologia da banheira que só ela não identifica como a panacéia de um corpo chafurdado em luxúrias de mentirinha.
Eu não sou moralista... Mas essa onda blasé há de desintegrá-la ralo a baixo

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cão Vadio

Então no meio da zorra toda ela me sai gritando que paixão é um cão ladino e sem dono (quase um clichezão!). Mas era ela quem estava no cio. O cão dos infernos apenas respondia a seus apelos veementes. Ela era a dona do cão vadio e falava com tanta graça de seu descalabro que iluminava a sala e arredores. Se havia um quê de impaciência, devia ser uma espécie de tesão contido que lhe escorria pelos poros, mas ela parecia saber o que fazer com sua selvageria. Foi quando soltou uma gargalhada orgástica,  e disse, a seguir contendo o tom: “...mas eu sou tímida”.

Foto da net

sábado, 20 de novembro de 2010

Gostosa e sexy sim, Bukowski


“valeu mesmo”, ele disse quando contei-lhe que o cara com quem dancei no bar não foi para casa comigo porque sabia que eu estava acompanhada.

Dizia que eu estava sempre pensando em sexo. Eu apenas levava sempre o sexo comigo, como quem leva enrolado um saco de papel. Muita energia? Talvez eu tenha moldado meu modus vivendi em Marilyn Monroe.

Ele dizia que seus amigos se surpreendiam com o fato dele estar ainda comigo depois de tudo o que já havia acontecido.

Caminho, sim, com estranhos na rua que me abordam com um bom dia, desde que seja um bom dia novo. Desaprendi a não falar com estranhos.

Então, depois de tempos em que não nos víamos mais, andou dizendo que eu havia “submergido em meus órgãos sexuais e desaparecido” e que “eu era como um despertador caído no Grand Canyon, que tocou , tocou e pouco mais ou menos conseguiu incomodar os peixinhos”.

Senti sua falta, claro! Robou-se de mim, mas deu-se a si de presente e se dedicou ao sapateado e soube que namora uma moça linda e lânguida.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dança de Libélulas

  A Fada Bêbada me fez uma confissão esta tarde. Disse que nunca aprendeu a dançar. Tem algum tipo de disritimia, que não é cardíaca... Mas dos pés mesmo. Quase tremeu os lábios quando revelou nunca ter dançado valsa de quinze anos  nem de formatura. Como uma moça deve ter pés de anjo e se deixar conduzir na dança, a Fada Bêbada não dança! Ela conduz tudo, inclusive seus tropeços todos. E ela cai desde a mais tenra idade. Pensa que pode voar e ei-la no chão!
Então, numa reciprocidade de confissões, revelo-lhe também meus passos errados numa dança de libélulas:



Não escrevo poesia
Nem escrevo
Grito  da boca pra dentro
Sento nua nesta cadeira
E liberto as libélulas todas de vez

Aprendi a não escrever poesia
E a sentar em todas as cadeiras

A dança das libélulas
É uma dança que se dança só                                                       
È de uma simetria infame                                                                                      
Pêndulo de movimentos certinhos                                               

Nunca aprendi a valsar
A versar
Então sento de costas para o quarto escuro
E libélulo
Liberto minha coleção de meninas nos papéis
Voam
E eu desabo da fadiga desta única dança.


P.S - Foto apanhada no blog http://naparededocasulo.blogspot.com/