Quando a Fada Bêbada andou apaixonada por uma moça lânguida, de pele macia e olhos enormes, imaginou que devia se tratar de uma outra...fada! Mas como acreditar nessas besteiras? Nunca se apaixonou por príncipes, mas por sapos... então sua fada talvez fosse alguma rã ou perereca! O resto... sexo e amizade.
Querem-na dócil, etérea, virginal, maternal... e ei-la Fada! E ei-la profana sim, tacanha sim, marginal, vaginal... ébria porque tropeça em seus saltos e assaltos de rompante. Bêbada no estranhamento de mundo que é entranhamento de força e fragilidade. Fada Bêbada então!
terça-feira, 7 de agosto de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
... e Dom Ratão caiu na panela do feijão!!!
Vocês devem conhecer a história
de Da. Baratinha... que tanto escolheu o eleito senhor detentor do seu amor,
tanto escolheu... que despachou grilos elegantes, sapos falantes, porcos
saltitantes e acabou encantada por D. Ratão, aquele que acabou na panela do
feijão! Pois muito bem, também se não conhecem a história , sinto informar que
a minha infância e a da Fada Bêbada foram mais lúdicas que a de vocês!
Chega-me , portanto, ainda agora
a Fada Bêbada, murcha e lacrimosa, metida num preto básico... e muito soturna e
calada - status este não condiz com a
personalidade da nossa amiga...
Voltava de um velório. Morreu o casamento de sua melhor amiga. E
neste momento desisti de entender o que quer que fosse, afinal, ela que está
tão além e aquém das instituições todas... ela que há anos deixou de crer na
irrefutabilidade da monogamia e adotou como modelo de relacionamento perfeito o
cult-classic de Sartre-Beauvoir...
não haveria porque em vestir o luto pela morte do casamento de quem quer que
fosse!
Mas disse que esse casamento era
diferente... que era o único a fugir de todas as suas convicções... Ou então
era a exceção que dignifica a regra! E disse que era lindo vê-los! Ela chegava junto
e sentia que a felicidade ganhava mais corpo ainda... e bem poderia chegar
aonde quer que fosse... E já havia muitos, mas muitos anos mesmo que eles eram
eternamente jovens! Quando na ocasião das bodas de prata, por exemplo, fizeram
uma festa à fantasia e riram tanto ou mais que na primeira festa de que
participaram todos... E agora, sem que nem pra quê, no meio de uma feijoada, o
casal anunciou a separação. Segundo contaram, como teriam casado muito novos,
não tiveram tempo de experimentar outros universos e agora começariam a degustação, cada um na sua (nada de menages a trois ou casas de swing). A Fada Bêbada, num estado desolador, disse ter
recebido uma punhalada letal e desmoronou
aqui no meu sofá, morrendo à míngua de
suas desilusões. Palavras dela.
Como eu omitisse opiniões,
levantou-se insolente e disse que era mesmo uma feijoada indigesta e, ao
contrário do final de Da. Baratinha, que perdeu seu amor na panela do feijão,
quem sabe sua amiga e todos, ao final, encontraríamos o feijão na panela do amor?
Estou pensando até agora, então, se o que disse faz algum sentido, se é uma
espécie de tostines ilógico, ou só uma apoquentação mesmo de fim de noite....
Mas acho que o que ela não entendeu é que a feijoada não fora indigesta... só
acabou! E quando o feijão acaba, a fome assola e devora os convivas!
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Síndrome dos caquinhos
Hoje deve ser o dia mundial da inconveniência e
ninguém detectou no Google! Não bastasse a sexta feira preguiçosa, sorrateira e
fria que se aboletou no meu sofá, enrolando-se abusadamente no meu edredom e me
exigindo que lhe fizesse sala, ainda me
chega a Fada Bêbada com suas frases-descobertas, clamando por atenção. Ela imagina que chega a grandes descobertas a
partir de suas observações de alcova e me vem toda prosa, com ares de grande
pensadora... e eu tenho de parar o que estou fazendo para servi-lhe torradas
com chá de jasmim... Só assim ela se acalma, dá duas piruetas e vai embora
feliz da vida – levando, claro, seu moleskine debaixo do braço, esperando por
novas tiradas “geniais”!
Hoje a grande conclusão é de que
depois dos trinta, tudo que dá tchiltchi no ser humano demora consideravelmente
para voltar aos eixos. Perguntei-lhe
onde estava a grande descoberta (???) ... e ela, muito detentora de seus
dizeres, garantiu que a premissa não se aplica apenas a perna quebrada, bunda
caída ou gripe mal-curada... disse que coração quando se quebra, depois dos
trinta... leva mais tempo pra juntar-se em
caquinho por caquinho!! E garantiu com a propriedade, que lhe é peculiar. Quem sou eu para contrariar a Fada Bêbada em
seus dizeres de alcova?! Quando questionei sobre suas andanças por ai, dando a
entender que ela, de repente, andava consolando algum quarentão mal amado, deu
duas risadas de canto de boca e disse que, apesar dos meus trinta, eu não tinha
coração pra quebrar, então ficasse tranquila que o mal dos caquinhos não me
pegaria de surpresa jamais!
Antes de ficar aliviada com o mal que
não me acometeria, fiquei porque ela saiu voando porta a fora e fazendo voltar
a paz silenciosamente sepulcral da minha sexta-feira madrugueira, que a esta
altura, afinal, já nem me parecia tão inconveniente assim...
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Vexame facebookiano
Ainda
bem que ela estava bêbada demais para postar a trilha sonora do seu
desatino. Um vexame facebookiano. Sim, porque na era das redes
sociais, por que ela iria se expor num bar ou festinha junina? Não.
Um cabernet sauvignon e seus pares foram o bastante para que ficasse
alegrinha, alegre, senhora de si, desesperada e acabasse postando que
amava todo mundo, saísse curtindo os memes mais estapafúrdios
- que falam de baratas que se reproduzem em marte – e cutucando
gente que não conhecia... algo que, já no século passado Assis
Valente cantava “beijei na boca de quem não devia, peguei na mão
de quem não conhecia...” Pois, eu que estava do lado... atesto
que foi triste!!! Nunca havia presenciado um porre on line.
Então, para não destoar, como não conseguisse fazê-la tomar um
café amargo que passei especialmente para a ocasião, deixei-a
quieta e liguei meu note. Loguei-me ao face e fiquei
curtindo as sandices que ela postava tresloucadamente... Felizmente a
trilha sonora da macaquice só eu ouvi!!!
segunda-feira, 2 de julho de 2012
um canto na rua
E a jovem loira, esquivada no
cantinho da rua, procurando um portal que se abrisse ali no meio de tudo e a
jogasse no centro de coisa alguma, falava quase cantando em seu desafino não
tão discreto, ao aparelho celular, com os olhos marejados: “se você acha que eu te cobro...”
Por isso os amores líquidos, menina
loira dos olhos marejados. Amor líquido escorre ladeira abaixo, precipita-se
com a gravidade... a não ser que o
mantenha n’algum jarro, bacia ou garrafa... Então você terá um amor
engarrafado, ou embaciado...Embaçado, menina, como seus olhos vermelhos. Porque
assim como amor não se explica, desamor também não. Não se cobra, nem se cobre
com tampas de tapwares coloridos, a serem emprateleirados na despensa, sob pena
de abafá-lo. Mas não se engane, há quem goste de amores organizados, bem
lacrados e devidamente etiquetados sim.
Voltei pra casa e a frasezinha
continuou em meu ouvido ecoada pelos macaquinhos cerebrais (sim, eu tenho
macaquinhos que macaqueiam tudo ao seu deliberado e bel prazer). É bom que eles a ecoem mundo afora. Em algum
canto desse mundão deve haver alguém tentando tirar de alguma concha na beira
do mar, ou de uma velha rabeca desafinada, exatamente este seu canto desarmoniosamente infeliz.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
"Factótum", Cap. 37
Certas escrivinhações apenas se escrevem. Não é a primeira vez que, lendo Bukowski, visto-me na pele de suas mulheres e regurgito suas palavras... A FadaBêbada diz que isso não passa de mera admiração, que estilística ou etílicamente pouco importa, já que não me tornará melhor bebedora, quiçá escritora de coisa alguma!!! Neste caso, bambear, tropeçar e cair será sempre a menor das consequencias!
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Eu era a secretária da gerencia. Há época, só me conheciam
por Carmen mesmo e a origem espanhola do meu nome não condizia com meus cabelos
muito loiros e minha pele clara, sem mancha nenhuma de sol. Usava vestidos de
tricô com decotes que insinuavam meus 300ml de silicone em cada peito e faziam
meu corpo insolente a tudo ao redor. Sapatos sempre de salto agulha, meias de
nylon, cinta-liga e mais uma porção de adereços que me consumiam quase metade
do ordenado raquítico que ganhava naquela espelunca. Tinha muitas certezas
àquela época, dentre elas : a plena consciência do poder da dança dos meus
quadris no vai e vem da malemolência dos meus vinte e poucos verdejantes anos.
O escritório era um ambiente insalubre, inóspito e todos
eram olhos famintos no meu serpenteado de única fêmea reinante. Eu...
gostava. O encarregado das entregas, um
sujeito de mãos largas, rudes e ares de quem não sabia, nem queria, ter lábia
doce pra mulher alguma, despia-me despudoradamente com pensamentos tão lascivos
que seriam capazes de ruborizar até as mentes mais sujas. Finalmente, sem mais se conter em suas calças, puxou-me a um
dos transportes de carga que descarregavam nos fundo do galpão. Pegou-me por trás,
numa fúria bestial. Foi bom. Morno... quase tão quente quanto o sangue que lhe
fervia as têmporas embebidas em suor.
Por um momento, esforçando-me na busca de seus olhos desgarrados, quase
descobria em que paragens perdiam-se
febris, mas estava mais divertido senti-lo quente e pulsante entre minhas coxas
grossas. Tinha me erguido o vestido de tricô acima dos quadris e começado a
meter-se em mim num ritmo até bem envolvente. Por fim, apertou-me os lábios contra
sua boca, como se quisesse, inutilmente, arrancar-me o vermelho e só percebi que gozou pela sua
respiração que começava a desacelerar. Depois, a misericordiosa e cerrada escuridão tragou a cara insólita daquele homem , brindando-me
com nossos silêncios apaziguados.
sábado, 12 de maio de 2012
Tempo de domingo
Ela tinha vinte e dois anos, três
papagaios, duas tartarugas e um medo horrível da solidão... Mas não gostava de
gente.
Trabalhava de sábado a sábado,
das oito às dezoito... e no domingo conversava com
a algazarra de Tartufo, Rogério e
Alfredo. Alternava o passar do tempo dando alface fresca a Margot e Osmar. Mas sempre,
ainda antes das seis da tarde, sobrava um tempo que demorava a acabar. A
programação da TV aberta lhe lembrava o fim da tarde de um domingo lento e
isso, de uma forma muito certeira, a perturbava.
Não costumava ter dinheiro
sobrando para locar filmes... e quando tinha... preferia ir ao cinema. Hesitava,
na maior parte das vezes, porque sabia que a olhariam, teriam pena de que estivesse só...
Então, chegava sempre com os traillers
começando. E, se por ventura, errasse nos cálculos e chegasse um pouco antes,
fazia pose na catraca da entrada, olhando impacientemente o relógio e pegando o
celular como se fosse discar para alguém que a fazia esperar. Assim ficava mais
aliviada. Mesmo assim, só entrava na sessão, depois das luzes apagadas e
fazendo cara de quem tomou bolo!
Teve uns dois namoricos, que não
superaram o marco de um mês de deduração e, nas duas vezes, deu graças a Deus
quando terminaram. Além de tudo não gostava de sexo... ou não sentia falta...
Começou a fazer terapia dizendo
que tinha medo que seus bichos morressem antes de si...Felizmente eles ainda
dispunham de muita vida pela frente. Também a terapia durou três ou quatro
inconsistentes sessões...
Então, adotou mais dois cágados,
um papagaio cego, que lhe demandava cuidados especiais, e plantou coentro e
tomates num canteiro improvisado no fundo da cozinha. Agora andava até
acelerada, senão o domingo não caberia no final de semana! Deitava bem cansada
e quando abria o olho... já era segunda-feira!
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