domingo, 24 de abril de 2011

Palavra (mal-bem)dita

"Na palavra, na linguagem, é que são primeiramente as coisas" 
                                                (M. Heidegger)

Então ela disse eu te amo e eu te amo era tão fátuo... Mas flamejava como bandeira ao vento e pelo vento ia-se e vinha e punha-se a voltar...
Ouvia-se como jingle repetitivo nos ouvidos incautos e até se fazia acreditar. Fê-la acreditar que amava
             ...
E assim amei por entre todos e todos os dias
Em que ouvia um silvo de silêncio
Amei  até as partidas e delas vesti todas as roupas...
           ...
E como ninguém mais acreditasse na palavra alçada ao tempo, ela insistiu em sua crença solitária e morreu de amores – só para contrariar os avessos, só pela rebeldia  e para  continuar escrava das palavras!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Como espantar Fadinhas e /ou Mariposas

Fadas Bêbadas em finais de semana estão para mariposas na luz...Rodopiam, penduram balangadans no pescoço e fitas nos cabelos, cantam desritimadamente, quando não desafinadamente, que quem assim as vê jura serem eternas! Que sempre estiveram ali e não vieram nem irão a lugar nenhum.
Mas, como as mariposas, ou bichinhos da luz, basta que se apaguem as luzes ou deixem que elas mesmas se enfastiem e torrem-se-lhe os miolos, os badulaques e os últimos tostões.
Apaguem a luz e mandem que elas se vão, que , como por magia, elas jamais terão estado ali.

sábado, 26 de março de 2011

Nova candidata ao BBB12

A Fada Bêbada anda tão estratosférica ultimamente... Disse que está pensando em ir para a TV contar seus experimentos sexuais. Deve estar achando que, porque meia dúzia de poetas agora a conhecem, ela passou a ser objeto de interesse da grande massa! Logo ela... tão liberta de interesses “líquidos”, tão pretensa e erroneamente anárquica... Agora querendo postar-se sob os holofotes... tsc tsc... Como todo mundo tem seu ponto fraco...
Tenho observado que não vem se recolhendo solitária em sua banheira de motel, vem estando mais sóbria, menos ácida...
Meu receio é que, num sábado desses, de outono escaldante, ela encontre platéia para suas histórias de amores tórridos... Porque ela é uma psicótica que precisa aumentar o lastro de suas conquistas como se isso fosse torná-la mais mulher ou menos coisificável... Se ela inventar loucuras, ignorem. Ou ignorem quando ela me chamar de recalcada pelas críticas que lhe faço. Nunca pretendi que fosse uma fada rosa de sapatinhos de cristal, mas coçar o saco e cuspir no chão é demais para quem refuta tão ferozmente os paradigmas culturais de gênero!!!
Enquanto isso ela me ignora totalmente e liga para a produtora que estaria interessada em televisioná-la... Ela ficaria mesmo muito bem de BBB : Bela, Braba e Besta!!!

segunda-feira, 14 de março de 2011

"For no one"

Hoje nem vodka, nem rum. Só a cerveja quente esmigalhando o fígado. Palmas para a mulher solitária da madrugada! Palmas para ela que enche o peito de fumaça barata e os olhos de lágrimas para chorar por ninguém, apesar da companhia  insistente de um nome de homem que, mais uma vez, ela não vai pronunciar.Porque jamais chorou por João, José, Noel, Bené... Chora por ninguém. E ouve a incansável trilha dos Beatles na versão de Caetano, só pra abrasileirar. Já é a nona vez. Ainda toca mais dez até que ela adormeça, porque o pranto acalma. O dia virá acordá-la.

sábado, 5 de março de 2011

Chatices de Carnaval

Ela nem gostava de pegação de Carnaval. Era gente muito suada, gargarejando cerveja para tirar mau hálito,  em níveis estratosféricos de embriagues, que ela preferia ser apenas a testemunha ocular de Momo. Sempre presente, mas numa distância efetivamente regulamentar.
E embora toda essa chatice que lhe era inerente, adorava Carnaval! Esperava o ano todo para sentir a euforia dos primeiros dias e ia ficando triste tão mais perto se aproximasse a quarta feira.
Estava encastelada no oitavo andar do prédio da Central do Brasil, num plantão interminável da Secretaria de Segurança Pública, que, quando o relógio marcou as seis da tarde, ela já estava seguindo o primeiro bloquinho chinfrim que passou à sua frente. E fantasiada, coisa que ela poucas vezes experimentava! Estava de presidiária, com uma plaquinha de 171 na camisa e algemas sugestivamente penduradas no braço.
Então seria muita afronta às regras momescas se ela hesitasse ao moreno de aproximadamente 1,85m de altura que lhe dera voz de prisão, dentro de uma fantasia de policial e munido de um enorme cassetete.
Nem havia segundas intenções naquela pegação, afinal, não existe intenção de coisa alguma nessa época. Ninguém quer ir, nem ficar, nem sair. Só o instante presente existe. Porque todo o resto do tempo se esquece numa amnésia alcoólica ou num sonho ressacado do dia seguinte. E como não seria diferente, lá pelas duas da manhã,quando já não tinha mais sandália nem documento e já havia trocado o policial bonitão por dois bêbados mais bêbados que ela, apoiou-se no poste, tentou arrumar os cabelos irremediavelmente desgrenhados e tascou um beijo rasgado no gringo que a comia com os olhos. Àquela altura já estava quase curando o porre, mas felizmente a chatice ela só resgataria depois de quarta-feira. Sentou no meio-fio, deu uma enorme golada na cerveja quente que trazia e não conseguiu deixar de gargarejar porque continuava não tolerando mal hálito alheio!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Pra além do arco-íres

Todos os dias, só acordava ao tocar os dedos no chienelo ao pé da cama. Então fazia nascer o dia e ela se editava em mais um capítulo. Era a novela que nunca acabava porque só tinha começo. Ou seria cinema? Adorava fins de ano, porque haveria o primeiro dia ... Fim de década... E já havia passado por duas. Presenciou o fim do milênio e devia se achar uma privilegiada por isso. Fazia todos os planos e começava a executá-los. Mas depois do início vinha o meio e, como ela só queria o novo, voltava ao zero e vivia assim fantasiada de fênix, escondendo as rugas que também insistiam em começar.
Ela adorava promessas – as próprias e as alheias. Assim, tudo era novidade e ela garantia que não se jogaria do terraço!
O tédio era uma pedra que ela jogava na vidraça do vizinho da frente.
Certo dia minha vidraça não se estraçalhou e tudo que soube foi que a inquilina do apartamento de frente ao meu havia se mudado. Certamente fez as malas e atravessou o arco-íres!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Para você, minha Bitta

Silêncio é só o que consigo ser hoje. O vazio que o tempo planta entre presença e ausência. Horas se tornarão anos e te levarão para longe de mim. Porque ainda agora você estava aqui nos meus braços tão pequena e indefesa. Seus olhinhos... Cadê você, Bittinha? Bibi? Bibibi? Bibi!!! Ah, meu amor, você está aqui... só não a vejo, mas sinto. Cuidando de seu filhinho Nino adotado, deitando sobre as roupas deixadas na cama, soltando pelos pela casa inteira. Eu te amo, minha Bitta.
O amor teima em não se resignar em amar sem você, mas ele agora tem de ser ainda mais sublime porque vai amá-la por toda parte, por toda a eternidade, mesmo sem vê-la em seu aspecto físico. E toda vez que eu pegar meu violão estarei tocando para você também, estarei a embalando nas notas que você sempre me ajudou a tocar.
E até que eu me acostume (?) em não lhe ver, estarei oca, apesar do amor enorme que me alenta. Um amor que flutua sem gravidade e não tem mais forma definida. É esférico e eterno em busca de seus olhinhos, de seu pelo tigrado dormindo ao meu lado e me aquecendo no frio.
A morte não existe, Bitta. É uma invenção do tempo, um furto abrupto da existência. Mas é só um duto do amor para a eternidade.