sábado, 5 de março de 2011

Chatices de Carnaval

Ela nem gostava de pegação de Carnaval. Era gente muito suada, gargarejando cerveja para tirar mau hálito,  em níveis estratosféricos de embriagues, que ela preferia ser apenas a testemunha ocular de Momo. Sempre presente, mas numa distância efetivamente regulamentar.
E embora toda essa chatice que lhe era inerente, adorava Carnaval! Esperava o ano todo para sentir a euforia dos primeiros dias e ia ficando triste tão mais perto se aproximasse a quarta feira.
Estava encastelada no oitavo andar do prédio da Central do Brasil, num plantão interminável da Secretaria de Segurança Pública, que, quando o relógio marcou as seis da tarde, ela já estava seguindo o primeiro bloquinho chinfrim que passou à sua frente. E fantasiada, coisa que ela poucas vezes experimentava! Estava de presidiária, com uma plaquinha de 171 na camisa e algemas sugestivamente penduradas no braço.
Então seria muita afronta às regras momescas se ela hesitasse ao moreno de aproximadamente 1,85m de altura que lhe dera voz de prisão, dentro de uma fantasia de policial e munido de um enorme cassetete.
Nem havia segundas intenções naquela pegação, afinal, não existe intenção de coisa alguma nessa época. Ninguém quer ir, nem ficar, nem sair. Só o instante presente existe. Porque todo o resto do tempo se esquece numa amnésia alcoólica ou num sonho ressacado do dia seguinte. E como não seria diferente, lá pelas duas da manhã,quando já não tinha mais sandália nem documento e já havia trocado o policial bonitão por dois bêbados mais bêbados que ela, apoiou-se no poste, tentou arrumar os cabelos irremediavelmente desgrenhados e tascou um beijo rasgado no gringo que a comia com os olhos. Àquela altura já estava quase curando o porre, mas felizmente a chatice ela só resgataria depois de quarta-feira. Sentou no meio-fio, deu uma enorme golada na cerveja quente que trazia e não conseguiu deixar de gargarejar porque continuava não tolerando mal hálito alheio!

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