quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cão Vadio

Então no meio da zorra toda ela me sai gritando que paixão é um cão ladino e sem dono (quase um clichezão!). Mas era ela quem estava no cio. O cão dos infernos apenas respondia a seus apelos veementes. Ela era a dona do cão vadio e falava com tanta graça de seu descalabro que iluminava a sala e arredores. Se havia um quê de impaciência, devia ser uma espécie de tesão contido que lhe escorria pelos poros, mas ela parecia saber o que fazer com sua selvageria. Foi quando soltou uma gargalhada orgástica,  e disse, a seguir contendo o tom: “...mas eu sou tímida”.

Foto da net

sábado, 20 de novembro de 2010

Gostosa e sexy sim, Bukowski


“valeu mesmo”, ele disse quando contei-lhe que o cara com quem dancei no bar não foi para casa comigo porque sabia que eu estava acompanhada.

Dizia que eu estava sempre pensando em sexo. Eu apenas levava sempre o sexo comigo, como quem leva enrolado um saco de papel. Muita energia? Talvez eu tenha moldado meu modus vivendi em Marilyn Monroe.

Ele dizia que seus amigos se surpreendiam com o fato dele estar ainda comigo depois de tudo o que já havia acontecido.

Caminho, sim, com estranhos na rua que me abordam com um bom dia, desde que seja um bom dia novo. Desaprendi a não falar com estranhos.

Então, depois de tempos em que não nos víamos mais, andou dizendo que eu havia “submergido em meus órgãos sexuais e desaparecido” e que “eu era como um despertador caído no Grand Canyon, que tocou , tocou e pouco mais ou menos conseguiu incomodar os peixinhos”.

Senti sua falta, claro! Robou-se de mim, mas deu-se a si de presente e se dedicou ao sapateado e soube que namora uma moça linda e lânguida.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dança de Libélulas

  A Fada Bêbada me fez uma confissão esta tarde. Disse que nunca aprendeu a dançar. Tem algum tipo de disritimia, que não é cardíaca... Mas dos pés mesmo. Quase tremeu os lábios quando revelou nunca ter dançado valsa de quinze anos  nem de formatura. Como uma moça deve ter pés de anjo e se deixar conduzir na dança, a Fada Bêbada não dança! Ela conduz tudo, inclusive seus tropeços todos. E ela cai desde a mais tenra idade. Pensa que pode voar e ei-la no chão!
Então, numa reciprocidade de confissões, revelo-lhe também meus passos errados numa dança de libélulas:



Não escrevo poesia
Nem escrevo
Grito  da boca pra dentro
Sento nua nesta cadeira
E liberto as libélulas todas de vez

Aprendi a não escrever poesia
E a sentar em todas as cadeiras

A dança das libélulas
É uma dança que se dança só                                                       
È de uma simetria infame                                                                                      
Pêndulo de movimentos certinhos                                               

Nunca aprendi a valsar
A versar
Então sento de costas para o quarto escuro
E libélulo
Liberto minha coleção de meninas nos papéis
Voam
E eu desabo da fadiga desta única dança.


P.S - Foto apanhada no blog http://naparededocasulo.blogspot.com/ 

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Olhos e gatos de Iracema

Mulheres com gatos costumam ter alma volátil e pés quentes, foi o que me confirmou ontem uma jovem senhora ruiva de sessenta e poucos anos e olhos cor de janela aberta!
Os moços e moças que estávamos na sala debruçamo-nos todos sob seu para-peito largo e avistamos, de soslaio, uma paisagem ensolarada de poesia picada ...Enquanto, ela, numa modéstia felina, insistia que era escritora para suas gavetas.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Muita humanidade pra pouca gente

      N´alguma fenda secreta de nossas almas, um serzinho ínfimo, quase invisível, alimenta dia após dia, um Hyde carniceiro, um Exu faminto, um diabinho com tridente afiado. E cada um sabe a hora de soltar os bichos. Cada um sabe quando toca o terceiro sinal para lançar seu monstro ao público.E é nesse átimo bestial que nos batizamos de tão propagada humanidade. Paradoxalmente, é neste mesmo instante que ressoam dos quatro cantos burburinhos como “Isso é desumano!!”. Essa humanidade hígida é uma perfídia, daí a máxima cristã: “... que atire a primeira pedra...”
      Hyde está sempre se aquecendo atrás da cochia...Qualquer hora ele ganha a cena e não vai ser uma pedra que ele vai lançar. Ele vai chegar montado numa catapulta! E depois do espetáculo, sem nenhuma polidez, arrotará na cara dos pagantes, sem ao menos lembrar de agradecer ao serzinho ínfimo que tão desveladamente o alimentou

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Três Desejos

Ah, maldita Fada Bêbada!! Ela , com muita propriedade, avisou que faria mandinga, macumba, reza forte ou qualquer mentalização que me mantivesse bastante ocupada aqui no mundo das coisas e totalmente afastada do blog. Tudo porque não lhe dei a palavra numa última postagem. Pois a tinhosa amarrou umas duas fitinhas do Bonfim na "cintura" da Sofia (a lagartixa que ela cria no armário da cozinha) e eu fiquei todos estes dias distante... Prontamente, amarrei três fitinhas no meu tornozelo direito ... E voltei - mais assídua e enfeitada que antes! Enfeitada, sim, com minhas fitas coloridas (e ainda correndo o risco de realizar três desejos, sem gênio nem nada! Afinal, para cada fita quebrada naturalmente... um desejo realizado!).
Conta a lenda que pedido não se revela antes de alcançado... Então, vamos para além da lenda, onde existe um pote cheio de moedas de ouro nos esperando e onde se pode contar (quase) tudo. Este lugar existe, sim, e é onde se contam os causos fortuitos desta que aqui vos fala (escreve). Então, vamos aos pedidos: O primeiro nó (que apertei muito fortemente na fitinha vermelha) devotei à campanha presidencial. Pedi para que o nível das "polêmicas", ao menos estanque, e pare de se lançar ao pó como bolinhas de papel ao vento. Veio o segundo nó, e este eu precisava destinar à Fada Bêbada. Que Papai do Céu a tutele em seu mais novo distúrbio de consumidora inveterada de vouches de descontos on line! Basta ver um anúncio de 80% de desconto, que ela empina o cartão de crédito. Já comprou, de adesivos para paredes a aulas de ballet (ela que odiava dança!). Eu não deveria me importar com ela, mas o amor que a vejo devotar àquela osga de cozinha me comove... No terceiro nó, numa fita verde-musgo, mentalizei Santo Expedito e pedi que afaste do coração dos homens a ânsia por DRs. Sim, pasmem, crianças... Eles aprenderam e agora vivem querendo discutir a relação - pouco importa se esta já  acabou ou nem começou! Deve ser algum tipo de vingança....Aviso às (aos) navegantes: o gosto exacerbado por DRs é encontrado, com maior frequencia, em machos do tipo beta. Então, mais que nunca, meninas, muita atenção ao rótulo!!
Pois assim passei estes dias de compulsivo afastamento do blog: Fitas amarradas, nós cegos e facas amoladas em punho, porque cana é doce mas só  depois de devidamente descascada!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Oração de Lua

      Vocês sabem que, em respeito aos leitores alérgicos a poesia, eu nunca posto uma única sem antes avisar. Hoje, entretanto, não vou acionar o “alerta-poesia” porque se trata apenas de uma oração à lua... A Deusa  Lua das mulheres Incas, suas sacerdotisas.
      Hoje eu caminhava rumo à praça central, muito despercebida de tudo...Quando, em meio às bancas de pastel, cujo cheiro despertava os mais recônditos sonhos de minhas celulites, dei falta do celular. Passado meio segundo de desespero, tomou-me uma onda de liberdade... Uma consciência de plenitude que só devo ter tido algum dia n´alguma sessão de massagem ayurvédica! Naquele momento eu tomava pra mim uma tal liberdade emprestada a todos que me podiam chamar a qualquer instante num único toque polifônico! Olhei pra os lados porque tudo, de repente, estava à minha volta e queria ser, realmente, visto. Olhei pra cima e me deparei com uma lua insistente. Insistente porque era tarde ainda, mas dessas tardes que não intimidam lua... Tinha cara de lua crescente e parecia rir da minha recém descoberta de ser humano ante, durante e pós celular! O ônus desse esquecimento: perdi um trabalho! O bônus....? Foi tão bom!!! Eu recomendo!
  
Oração de lua
  
Palavras de lua são preces vestidas de branco
Ela, a bruxa de cetim!

Atirar-lhe-iam pedras, talvez
Ou fagulhas das fogueiras
Mas ela , distante se ria e ia e vinha...
Então os cães passaram a uivá-la
E os loucos a ouví-la
E os amantes...emprenham-se-lhe ainda nas noites
E, novos,
Crescem,
Enchem,
Ajoelham-se e rezam
Para que nunca se deite à míngua
O santo manto de luz

      A Fada Bêbada ta aqui do meu lado se roendo, roxa de raiva porque queria postar e eu não vou deixar. Ela está muito irritada com minha postagem brega (palavras dela). Diz que a qualidade da poesia já abandonou, há tempos, a categoria de “duvidosa”... Mas o blog é meu e hoje ela não vai postar coisíssima nenhuma! Ela que se acalme, vá buscar a lua pela sua janela... E amanhã... Quem sabe...