domingo, 2 de dezembro de 2012

da falta do cigarro


Era alguma coisa de pouco asseio,  de mole.. alguma coisa a tornava interessante...  Tinha cara de gozo, de quem acorda em cama alheia sem ter dormido  e veste um camisão emprestado pra ir embora. Cara de noite em claro, cabelos que não conheciam escova e boca.. ah! Boca de quem beijou a pele de outras bocas...

E pouco se falavam, conhecera-a num breve olá , e,  de  olás se riam. Mas já se iam duas madrugadas sem que conseguisse esquece-la ou lembra-la  ao certo. Talvez devesse chama-la para um café ou para um chope.  Mas então seria correr o risco de ouvi-la. Bastavam-lhes os olhos, os possíveis vinte e dois anos e o jeito de quem faz pouco caso de tudo por simples falta de paciência e conhecimento de causa ou  circunstância. Ela não precisava dizer nada. Só deixar os olhos esverdeados entreabertos.  Então não era um café que deveriam tomar. Talvez chama-la para fumar .  Mas faltava-lhe cigarro e juventude para  trocar.  Então a lembrança da fumaça não queimada era o que restaria impregnando suas  próximas madrugadas... até que se cruzassem mais uma vez, que se rissem novamente e, quem sabe, houvesse então um cigarro  ou não mais a necessidade dele...

sábado, 10 de novembro de 2012

Fadas Meninas

A menina, muito centrada, de lápis em punho respondia sem voltar-lhe a atenção:

-Você está desenhando, pequena? O que desenha?
- o rosto de deus
-Mas ninguém jamais viu o rosto de deus...
- Espera um pouco que já já você vê!

                                                             
                                                                        (Com os créditos a Márcio Baltazar, que viu a carinha de deus!)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Olha o passarinho...


Um toquezinho estranho e insistente fazia-a lembrar que já era dia e tinha de ir pra casa. Não ficava bem acordar às três da tarde na casa do peguete inabitual... mas antes das oito também... é sacanagem!!!

Ele abre o olho esquerdo, ensaia abrir o direito, constata a mensagem do face que o toquezinho anunciava e, fazendo um gracejo, pede com a voz rouca de quem ainda tá pensando em acordar:

- põe seus pezinhos do lado dos meus...

Ela, tentando entender, mas achando até bonitinho, franze a testa, mas emparelha os pezinhos aos dele. Fica com vergonha por não ter feito as unhas dos pés, mas felizmente não tinha unha encravada e seu joanete andava bem discreto ultimamente.  TSSSSC!!! Uma foto.

- ?

Antes que ela consiga organizar alguma ideia de pergunta, ele, muito faceiro, posta a foto dos pés enlaçados entre os lençóis, como resposta ao bróder que bombardeava sua linha do tempo com fotos douradas da orla ensolarada naquele domingo solar, chamando-o para uma corrida.

Ela, meio surpresa e meio puta, sentiu-se, de certa forma...exposta, invadida.... Mas, entre a preguiça e dois bocejos, achou o rapaz até bem criativo e discreto! Por via das dúvidas, levantou e foi-se embora logo. Dizem que o que abunda não vicia... mas vai que...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De pés e pós


Tudo nela era uma crescente, das enxaquecas às paixões.  Tudo buscava seu paroxismo como numa espécie de inevitável ponto gravitacional. Vivia urgente e desesperadamente, chorava copiosamente... As coisas lhe eram superlativas!!!

Quando tinha insônia eram noites inteiras em claro e quando dormia, sonhava tanto a ponto dos sonhos sonharem a realidade, que por sua vez perdia a hora do dia.

Foi assim que, numa hora incerta de qualquer dia desses, amou. E amou tão intensa e tresloucadamente que não teve dúvida de que seus pés correriam para além do chão, até alcançar este tão perseguido amor. Assim correu, correu e correu exaustivamente.... até que de tanta sofreguidão, cuspiu pra fora do peito seu coração aflito e extasiado.

Desde então não a vi, mas soube que agora anda cantando mantras ao nascer do sol, estuda medicina ayurvédica, cultiva cogumelos numa cidadezinha no sul da França e o coração numa salmoura.  

domingo, 30 de setembro de 2012

Quando vi os olhos embaçados da moça e perguntei o que tinha, respondeu:

- tenho um gato, um pé de coentro alguma paciência

E por que a tristeza?

 - Preciso de mais!!!  -  e saiu antes de especificar se eram mais gatos ou coentro que lhe faltavam!

sábado, 22 de setembro de 2012

A fada do feijão


Fadas são como pirimlampos... aparecem e desaparecem ao seu bel prazer. Assim também os duendes ou o famigerado Mestre dos Magos lembram-se dele? Famigerado sim, porque segundo consta, no fim das contas ele atrapalhava mais que ajudava com seus enigmas indecifráveis... Mas, voltando às fadas, gente, convenhamos, não dá pra ficar vendo fada o tempo todo, a não ser quando se toma um ácido, ou quando se está apaixonado ou apaixonada por uma delas. Fadas são exuberantes demais, afoitinhas demais, fazem muito barulho ou muito silêncio... têm mais é que ser intermitentes mesmo! Doce demais enjoa, salgado demais dá sede, muita fritura dá azia! Então não me venham falar de relacionamentos fofos, incapazes de conviver com as ausências. Não me venham falar desta colaboração geminada, moto-contínua, que não olha para os lados, que não sente outros sabores... Alguém pode precisar quantos tipos de feijão existem? Sim, feijão é uma semente leguminosa adorável e os apreciadores desta iguaria, sem dúvida, pretendem continuar degustando os novos tipos geneticamente modificáveis, e, claro, voltar sempre e fielmente à boa e velha feijoada... e ao feijão fradinho, feijão verde, carioquinha... Feijão, lembrem-se, é ítem básico na cesta básica da família brasileira.

Fadas gostam de feijão, é isso!  Aparecem famintas e desaparecem com a inevitável indigestão de seus apetites glutões! Então, não maldigam as fadas. Não é falta de amor, atenção, bem querer. É excesso de andanças, ou voanças... Elas somem, mas aparecem... somem... aparecem de novo... e somem...aparecem...

 

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Prova sem crime

No Direito Penal, ciência chata e inútil, o crime putativo se dá quando determinado agente desempenha dada conduta, imaginando tratar-se de tipo penal, traduzindo: a criatura comete certo ato imaginando que é crime. Logo, se a criatura realiza o tal ato, a priori haverá provas: provas de um não crime!
Foi quase assim com Albertina. Namorava um rapaz há mais de três anos e, há pouco mais de um mês estavam noivos, com data marcada do casório e tudo! Entretanto, por mais que andasse na linha, ele carregava uma pulga enorme atrás da orelha. E era uma pulga gigante, bem nutrida, que dia após dia engordava mais... Havia dias em que a pulga aparecia mais que a cara sisuda e séria do noivo ressabiado...
Então, Albertina já incomodada com a presença insistente da dita pulga, resolveu que daria fim àquela situação, de uma forma ou de outra. Tratou de espalhar por ai que andava de chamego com o filho da vizinha, com o amigo do irmão, que trocava bilhetinhos com o rapaz da seguradora e que ficava até altas horas ao telefone com o professor de violão. Não deu outra: assim que o burburinho chegou ao pé do ouvido do noivo, ele rasgou todas as cartas de amor que ela o havia mandado, devolveu-lhe todos os presentes, desmarcou a data do casório e tirou a pulga da orelha, passando a desfilar com ela de braços dados pra cima e pra baixo na maior intimidade.
Albertina? Não foi, portanto, um caso de crime putativo, nem de final feliz, nem o escambau. Se o Direito fosse uma ciência certeira e profícua talvez servisse pra disciplinar e conduzir sentimentos, mas qual o que?
 Ela disse que estava em paz, que deu comida a quem tinha fome, que alimentou o mostro alheio faminto e que  pra esta lei não há código, nem juiz,  nem tribuna. Apenas infratores... ou benfeitores!