Faltavam pouco mais de dez minutos para meia noite e a enorme aglomeração humana pintava de branco a areia já clara e iluminada do posto cinco de Copacabana. Tanta gente cabia através da janela daquele 12º andar... E ela entre taças de espumante e o riso festivo dos convivas. A chuva fina deixava o cenário mais colorido com a ajuda dos guarda-chuvas. E era um chuvisco tão insistentemente brando, que fê-la querer preciptar-se também. Lembrou-se de deixar os sapatos, não fechou a porta atrás de si e desceu pela escada mesmo, que o elevador antigo e pouco confiável tardaria a chegar. Cada andar transcorrido era mais um giro na mente que já trabalhava em espiral... Atravessou a rua mais ébria pelas escadas que pelo champanhe e, antes de lançar-se ao mar, jogou-se contra a massa compacta dos milhares de espectadores dos fogos de artifícios que começariam a estourar e que não percebiam sua travessia quase tresloucada. Como não trazia flores nem perfumes, daria seu corpo inteiro à Senhora do Mar.
E quando estava tão longe da beira da praia, quanto os pensamentos estavam do seu corpo, deixou-se boiar como imaginava terem feito os primeiros aminoácidos do planeta. Sentia a carícia do mar dos poros pra dentro e as explosões luminosas no céu eram tão assíduas quanto a chuva fina que lhe beijava a fronte salgada.
Voltou à praia e atravessou de novo a multidão atônita. Devia estar invisível na sua eternidade solitária. Sabia que se o mundo acabasse àquela altura, talvez só ela percebesse. A rua policiada e muito clara tinha então outro idioma, tal a frequência de turistas estrangeiros. Gostou de ouvir outra língua, que não tentou identificar, roçando seus ouvidos.
Agora já podia esperar o elevador. Tinha todo o tempo do mundo para voltar ao parapeito da velha janela.
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